
Nos últimos anos, a oftalmologia tem apresentado um extraordinário progresso e, os óculos, as lentes de contato e a cirurgia refrativa têm tido uma participação muito importante nesta evolução, trazendo grandes benefícios para as pessoas que necessitam de correção visual.
Lentes oftálmicas com alto índice de refração e desenhos mais fisiológicos e menos aberrações têm sido produzidas, permitindo a confecção de óculos mais confortáveis, mais estéticos e eficientes. Tratamentos com materiais ativados pela radiação ultravioleta produzem o escurecimento e o clareamento das lentes de forma cada vez mais rápida e intensa e em diferentes tonalidades. Filtros para radiação ultravioleta, associados ou não ao escurecimento das lentes reduzem ou evitam os danos oculares causados por este tipo de luz. O tratamento anti-refrexo atual apresenta menor aderência de partículas e está mais eficiente e duradouro.
As lentes de contato feitas com materiais que causam cada vez menos transtornos à fisiologia ocular e desenhos mais compatíveis com a topografia da córnea têm feito com que aumente o número de usuários em todo o mundo. A modernização dos métodos de fabricação, com redução dos custos, tem permitido a produção de lentes descartáveis de um dia, uma semana, um mês ou ainda de troca trimestral. Lentes de contato de alta transmissibilidade de oxigênio, baixa ionicidade, resistência a depósitos têm sido produzidas. Os sistemas de cuidados estão cada vez mais simplificados. Um ou dois produtos são suficientes para uma boa manutenção, conservando as lentes limpas e desinfetadas, facilitando o seguimento das orientações médicas pelos usuários.
A cirurgia refrativa realizada na córnea ganhou popularidade entre os oftalmologistas com os relatos iniciais de Fyodorov em 1979, Bores em 1980 e Waring em 1982, utilizando-se a técnica de ceratotomia radial. Milhares de cirurgias foram realizadas em todo o mundo. Porém, hoje esta técnica está praticamente abandonada, com o advento do excimer laser e das técnicas de PRK (ceratectomia fotorrefrativa) e Lasik (laser in situ keratomileusis).
Os primeiros resultados de cirurgias realizadas com excimer laser em olhos humanos, foram relatados por Mc Donald em 1989 e Seiler em 1990, utilizando-se a técnica de PRK. Posteriormente surgiram as técnicas de Lasik, com as vantagens da ablação intra-estromal e a Lasek (Laser epithelial keratomileusis). Na atualidade, as técnicas de PRK e Lasik são as mais utilizadas. Aperfeiçoamento das técnicas aconteceram com o surgimento da aberrometria e das ablações personalizada e asférica.
Exames pré-operatórios mais sofisticados e aparelhos de excimer laser mais modernos aumentaram a segurança, a precisão e a possibilidade de sucesso dos procedimentos. Nos últimos anos começou-se a utilizar também o laser de fentosegundo para confecção da lamela na técnica de Lasik.
Outros tipos de cirurgia refrativa são o implante de anel intra-estromal, a realizada utilizando-se radiofreqüência, o implante de lente intra-ocular em olhos fácicos e a cirurgia facorrefrativa. O implante de anel intra-estromal tem indicações muito específicas; a cirurgia com radiofreqüência apresenta resultados limitados e é muito pouco realizada; o implante de lente intra-ocular em olhos fácicos está relacionado com complicações como alteração da pupila, catarata, descompensação de córnea e ainda continua em fase experimental; a cirurgia facorrefrativa realizada em olhos com cristalino transparente tem implicações éticas e risco de complicações em olhos saudáveis e ainda é muito pouco realizada.
Portanto, as cirurgias refrativas que disputam espaço com as lentes de contato e com os óculos na correção dos erros refrativos, miopia, astigmatismo, hipermetropia e presbiopia, são somente aquelas realizadas por meio de ablação corneal, especialmente PRK e Lasik.
O futuro da correção ópticaSegundo dados da Organização Mundial de Saúde, publicados em 2008, há cerca de cento e quarenta e cinco milhões de pessoas com acuidade visual entre 20/60 e 20/400 e oito milhões de cegos (acuidade visual menor que 20/400 no melhor olho) devido a erros refrativos não corrigidos. Para estas pessoas que têm dificuldade de acesso a um exame oftalmológico e à aquisição de óculos, as lentes de contato e a cirurgia refrativa estão fora de cogitação.
Os óculos não apresentam risco de complicações, são muito práticos e de relativamente fácil reposição e podem ser substituídos sempre que houver mudança na refração; o seu uso não depende de aprendizagem, treinamento, seguimento de orientação médica e não predispõem a complicações que podem causar grande comprometimento da acuidade visual.
As lentes de contato são um maravilhoso recurso de correção óptica, mas a sua adaptação depende da tolerância individual, do treinamento, do seguimento das orientações médicas e da condição financeira do candidato, uma vez que a primeira opção é representada pelos óculos. A cirurgia refrativa, sendo um procedimento cirúrgico, afasta a maioria dos portadores de erros refrativos, devido ao receio ou medo de submeter-se à operação e ainda em razão das contra-indicações e do custo mais elevado.
Melvin Freeman, em 1995, numa comunicação pessoal, fez a previsão de que no futuro, entre as pessoas que necessitam ou necessitarão de correção óptica nos Estados Unidos, 10% se submeterão à cirurgia refrativa, 20% usarão lentes de contato e 70% farão opção por óculos. Muito provavelmente, este estudo está muito próximo da realidade atual e continuará valendo para o futuro.
Sempre haverá um lugar muito importante para a cirurgia refrativa e para as lentes de contato, como recursos para a correção de erros refrativos, mas os óculos deverão sempre predominar na preferência da maioria dos portadores.
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11- Waring, GO III. Radial Keratotomy in perspective. Ophthal Forum 1: 12-4, 1982.
Fonte: Adamo Lui Netto, Cleusa Coral-Ghanem, Newton Kara-José, Nilo Holzchuh, Paulo Ricardo de Oliveira
(retirado do livro : “Saúde Ocular e Prevenção da Cegueira”; de Newton Kara-José e Maria de Lourdes Veronese Rodrigues. Tema Oficial do XXXV Congresso Brasileiro de Oftalmologia- ed. Cultura Médica, RJ, 2009).
Fonte da imagem: Corbis