Óculos

O futuro da correção óptica
28/02/2010



Nos últimos anos, a oftalmologia tem apresentado um extraordinário progresso e, os óculos, as lentes de contato e a cirurgia refrativa têm tido uma participação muito importante nesta evolução, trazendo grandes benefícios para as pessoas que necessitam de correção visual.

Lentes oftálmicas com alto índice de refração e desenhos mais fisiológicos e menos aberrações  têm sido produzidas, permitindo a confecção de óculos mais confortáveis, mais estéticos e eficientes. Tratamentos com materiais ativados pela radiação ultravioleta produzem o escurecimento e o clareamento das lentes de forma cada vez mais rápida e intensa e em diferentes tonalidades. Filtros para radiação ultravioleta, associados ou não ao escurecimento das lentes reduzem ou evitam os danos oculares causados por este tipo de luz. O tratamento anti-refrexo atual apresenta menor aderência de partículas e está mais eficiente e duradouro.

As lentes de contato feitas com materiais que causam cada vez menos  transtornos à fisiologia ocular e desenhos mais compatíveis com a topografia da córnea têm feito com que aumente o número de usuários em todo o mundo. A modernização dos métodos de fabricação, com redução dos custos, tem permitido a produção de lentes descartáveis de um dia, uma semana, um mês ou ainda de troca trimestral. Lentes de contato de alta transmissibilidade de oxigênio, baixa ionicidade, resistência a depósitos têm sido produzidas.  Os sistemas de cuidados estão cada vez mais simplificados. Um ou dois produtos são suficientes para uma boa manutenção, conservando as lentes limpas e desinfetadas, facilitando o seguimento das orientações médicas pelos usuários.

A cirurgia refrativa realizada na córnea ganhou popularidade entre os oftalmologistas com os relatos iniciais  de Fyodorov em 1979, Bores em 1980 e Waring em 1982, utilizando-se a técnica de ceratotomia radial.  Milhares de cirurgias foram realizadas em todo o mundo. Porém, hoje esta técnica está praticamente abandonada, com o advento do excimer laser e das técnicas de PRK (ceratectomia fotorrefrativa) e Lasik (laser in situ keratomileusis).

Os primeiros  resultados de cirurgias realizadas com excimer laser em olhos humanos, foram relatados por   Mc Donald em 1989 e Seiler em 1990, utilizando-se a técnica de PRK.  Posteriormente surgiram  as técnicas de Lasik, com as vantagens da ablação intra-estromal  e  a Lasek (Laser epithelial keratomileusis). Na atualidade, as técnicas de PRK e Lasik são as mais utilizadas. Aperfeiçoamento das técnicas aconteceram com  o surgimento da aberrometria e das ablações  personalizada  e asférica.  

Exames pré-operatórios mais sofisticados e aparelhos de excimer laser mais modernos  aumentaram a segurança, a precisão e a possibilidade de sucesso dos procedimentos. Nos últimos anos começou-se a utilizar também o laser de fentosegundo para confecção da lamela na técnica de Lasik.

Outros tipos de cirurgia refrativa são o implante de anel intra-estromal, a realizada utilizando-se radiofreqüência, o implante de lente intra-ocular em olhos fácicos e a cirurgia facorrefrativa. O implante de anel intra-estromal tem indicações muito específicas; a cirurgia com radiofreqüência  apresenta resultados limitados e é muito pouco realizada; o implante de lente intra-ocular em olhos fácicos está relacionado com complicações como alteração da pupila, catarata, descompensação de córnea e ainda continua em fase experimental;  a cirurgia facorrefrativa realizada em olhos com cristalino transparente tem implicações éticas e risco de complicações em olhos saudáveis e ainda é muito pouco realizada.

Portanto, as cirurgias refrativas que disputam espaço com as lentes de contato e com os óculos na correção dos erros refrativos, miopia, astigmatismo, hipermetropia e presbiopia, são somente aquelas realizadas por meio de ablação corneal, especialmente PRK e Lasik.



O futuro da correção óptica
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, publicados em 2008, há cerca de cento e quarenta e cinco milhões de pessoas com acuidade visual entre 20/60 e 20/400 e oito milhões de cegos (acuidade visual menor que 20/400 no melhor olho) devido a erros refrativos não corrigidos. Para estas pessoas que  têm dificuldade de acesso a um exame oftalmológico e à aquisição de óculos, as lentes de contato e a cirurgia refrativa estão fora de cogitação.

Os óculos não apresentam risco de complicações, são muito práticos e de relativamente fácil reposição  e podem ser substituídos sempre que houver mudança na refração; o seu uso não depende de aprendizagem, treinamento, seguimento de orientação médica e não predispõem a complicações que podem causar  grande   comprometimento da acuidade visual.

As lentes de contato são um maravilhoso recurso de correção óptica, mas a sua adaptação depende da tolerância individual, do treinamento,  do seguimento das orientações médicas e da condição financeira do candidato, uma vez que  a  primeira opção é representada pelos óculos. A cirurgia refrativa, sendo um procedimento cirúrgico,  afasta a maioria dos portadores de erros refrativos, devido ao receio ou medo de submeter-se à operação e ainda em razão das contra-indicações  e do custo mais elevado.

Melvin Freeman,   em 1995, numa comunicação pessoal, fez a previsão de que no futuro,  entre as pessoas que necessitam ou necessitarão de correção óptica nos Estados Unidos, 10% se submeterão à cirurgia refrativa, 20% usarão  lentes de contato e 70% farão opção por óculos. Muito provavelmente,  este estudo está muito próximo da realidade atual e continuará valendo para o futuro.

Sempre haverá um lugar muito importante para a cirurgia refrativa  e para as lentes de contato, como recursos para a correção de erros refrativos, mas os óculos deverão sempre predominar na preferência da maioria dos portadores.


Referências Bibliográficas
1-    Bores LD, Myers WD, Deitz, MD (independent reports): National radial Keratotomy Study Group Course. Santa Monica Hospital. Los Angeles. May 1980.
2-    Donshik , PC, Freeman, MI. Contact lens residence training: progress and challenges. Editorial. CLAO Journal. 2000; 26: 172.
3-    Kara-José, N, Coral-Ghanem, C. Complicações associadas ao uso de lentes de contato.  In: Coral-Ghanem, C, Kara-José, N. Lentes de contato na clínica oftalmológica, 2ª Edição, Cultura Médica:  Rio de Janeiro: 2003. p. 281-6
4-    Oliveira, PR. Informe de progresso: Los lentes, las complicaciones Y el oftalmólogo. Ophthalmology Times America Latina. 1999; 30-3.
5-    Oliveira, PR. Lentes terapêuticas. In: Coral-Ghanem, C, Kara-José, N. Lentes de contato na clínica oftalmológica. 2ª edição, Cultura Médica: Rio de Janeiro: 1998. P. 108-12
6-    Oliveira, PR. Uso de lentes de contato: percepção e conduta de funcionários de hospital e estudantes universitários da área de saúde (tese). São Paulo: Universidade de São Paulo; 2001.
7-    Resnikoff S. et al. Global data on visual impairment  in the year 2002. Bull World  Health Organ 2004; 82:844-51
8-    Resnikoff S. et al.  Global  magnitude  of visual impairment caused by uncorrected refractive errors in 2004. Bull World Health Organ 2008; 86:63-70
9-    Urbano, I, Urbano, A, Urbano, A. Cirurgia ceratorrefrativa a laser. In: Alves, MR, Chamon, W, Nosé, W. Cirurgia Refrativa. Cultura Médica: Rio de Janeiro: 2003. p. 281-6.
10-    Villasenhor, RA. The history of radial Keratotomy. In: Sanders, DR, Hoffmann, RF. Refractive Surgery: a test of radial keratotomy. Slack: Thorofare: 1985. p. 3-8.
11-      Waring, GO III. Radial Keratotomy in perspective. Ophthal Forum 1: 12-4, 1982.
   


Fonte:
Adamo Lui Netto, Cleusa Coral-Ghanem, Newton Kara-José, Nilo Holzchuh, Paulo Ricardo de Oliveira
(retirado do livro : “Saúde Ocular e Prevenção da Cegueira”; de Newton Kara-José e Maria de Lourdes Veronese Rodrigues. Tema Oficial do XXXV Congresso Brasileiro de Oftalmologia- ed. Cultura Médica, RJ, 2009).


Fonte da imagem: Corbis

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