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Por que o glaucoma continua sendo uma causa de cegueira?
25/07/2010



O glaucoma é a 2ª causa de cegueira no mundo e a 1ª causa de cegueira irreversível (1). A grande maioria dos portadores de glaucoma, tem glaucoma primário de ângulo aberto que é a forma mais prevalente e que se diagnosticado precocemente e tratado adequadamente raramente leva à cegueira. O tratamento desta forma de glaucoma e de grande parte das outras formas da doença é feito por meio de instilação de colírios. Existem hoje 5 classes de drogas sob forma de colírios para este tratamento, algumas delas com grande capacidade hipotensora ocular e de fácil utilização (uma única instilação).

Desta forma vem a pergunta, porque o glaucoma continua sendo a 2ª causa de cegueira?

Para responder a esta questão vários pontos devem ser considerados. O primeiro deles é o do diagnóstico: apesar da tecnologia disponível hoje para fazê-lo, apenas 50% dos pacientes portadores da doença sabem que tem glaucoma mesmo em países desenvolvidos1. Isto impede que mesmo nestes países haja acesso ao atendimento para toda a população.

No Brasil onde os recursos para a saúde pública são bastante restritos o problema é seguramente maior. Estudo feito na UNICAMP mostra que 36,12% dos pacientes chegam cegos já na primeira consulta. Considerando cegueira unilateral, esta porcentagem é ainda maior, 51,8%2. Também na UNESP observou-se que 36,12% dos olhos chegavam cegos em primeira consulta3. Considerando que ambas Universidades estão situadas no estado de São Paulo, estado mais rico da Nação e prestam assistência à grande parte da população em suas regiões, acredita-se que os números devam ser ainda piores em outras regiões. Estas observações mostram que a presença de médicos capacitados e locais de atendimento adequadamente equipados para diagnóstico e tratamento, não são suficientes para que pessoas com risco da doença tenham acesso ao diagnóstico e tratamento.

A educação da população sobre a doença se faz necessária para que pessoas com risco de glaucoma (parentes de glaucomatosos, idoso, negros) procurem os serviços disponíveis. A educação em saúde é responsabilidade de todos, principalmente dos profissionais atuantes na área de saúde4 e poderia ser parte da solução.

Programas de “screening” para glaucoma são expensivos e o benefício de sua efetividade não está comprovada.

Outro aspecto importante à considerar é o do tratamento do glaucoma. Apesar da disponibilidade de grande número de colírios, o acesso ao tratamento é restrito. Estudo feitos na UNIFESP mostram que o tratamento do glaucoma de pacientes de uma instituição pública, consome até 29,1% da renda familiar de uma família,5,6. Considerando que grande parte ou a maioria dos glaucomatosos apresentam comorbidades o tratamento torna-se muitas vezes inviável. A portaria do Ministério da Saúde 8679 de maio de 2002 que: “Institui no âmbito do Sistema Único de Saúde, o programa de assistência aos pacientes portadores de glaucoma”, veio sem dúvida minimizar este problema. Mas ainda não conseguiu plena capacidade de cobertura de toda população que precisa do tratamento.
A não fidelidade ao tratamento é outro fator da maior importância relacionado à cegueira. Grant et al.7 observaram que esta foi a causa de cegueira em 42,5% dos casos.



Referências

1.    Quigley HA. Number of people with glaucoma wordwide. Br J Ophtahomol. 1996;80:389-93.

2.    Gullo RM et al. Condições visuais de pacientes glaucomatosos em um hospital universitário. Arq Bras Oftalmol. 1996;59:147-50.

3.    Rodrigues AC et al. Número de olhos cegos por glaucoma detectados em primeira consulta num hospital universitário. Arq Bras Oftalmol. 1998;61(5):572-8.

4.    C Carvalho RS. Conduta leiga e assistência médica em pacientes do Pronto-Socorro de Oftalmologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Universidade de São Paulo. Tese de Doutorado – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP/FM/SBD 250/07. http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5149/tde-25032009-145309/

5.    Mello PAA. Custo real do tratamento do glaucoma para um paciente de hospital previdenciário. Arq Bras Oftalmol. 1998;61(4):462.

6.    Stillitano G et al. Impacto econômico do custo de colírios no tratamento do glaucoma. Arq Bras Oftalmol. 2005;68(1):79-84.

7.    Grant WM & Burke J. Why do some people go blind from glaucoma? Ohthamol. 1982;89:991-8.



Fonte: Glaucoma
Dra Maria Rosa Bet de Moraes
Fonte:Saúde Ocular e Prevenção da Cegueira;
Newton Kara-José e Maria de Lourdes Veronese Rodrigues
Ed. Cultura Médica; 2009.
Fonte da notícia: Dra Maria Rosa Bet de Moraes

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