Perguntas e Respostas

Posso pegar AIDS em um transplante de córnea?
25/07/2010




O HIV (vírus da imunodeficiência humana), patógeno que causa a síndrome de imunodeficiência adquirida (AIDS), já foi isolado no epitélio corneano de alguns pacientes HIV-positivos. Estas observações geram preocupações sobre o risco da transmissão do HIV pelo transplante de córnea.

No entanto, até o momento, não há relato de soroconversão pelo HIV após a ceratoplastia utilizando córneas de doadores contaminados, inclusive de receptores soronegativos que receberam, inadvertidamente, córneas soropositivas para o HIV. Apesar disso, pelo fato do vírus já ter sido encontrado na lágrima, córnea e conjuntiva de seres humanos, há o risco real de contaminação, devendo a sorologia para HIV tipos 1 e 2 ser solicitada de rotina.

Deve-se também, fazer uma análise criteriosa da história do doador em relação a fatores de risco para a contaminação pelo HIV, pois este pode encontrar-se na janela imunológica ou apresentar um resultado falso-negativo à sorologia. Simonds et al. (1992) descreveram um caso de transmissão do HIV-1 por transplante de órgãos e tecidos realizado entre o momento em que o doador infectou-se e o aparecimento de anticorpos. Este doador faleceu por acidente com arma de fogo. Sete dos 48 receptores apresentaram anticorpos positivos para o HIV-1. No entanto, os 2 pacientes que receberam as córneas, apresentaram negatividade para o HIV-1.

Schwarz et al. (1987) relataram a transmissão do HIV através de transplante renal de dois doadores infectados. O vírus foi transmitido a 2 receptores de rim, que desenvolveram sintomas de infecção por HIV 12 dias após o transplante. No entanto, os 3 receptores das córneas não desenvolveram infecção, nem apresentaram anticorpos contra o HIV, mesmo 3 anos após o transplante.

Mas é importante lembrar que a entrevista médica social pós-morte, apesar de extremamente importante, não pode presumir conhecimento completo dos riscos de doenças potencialmente transmissíveis dos doadores. Um estudo realizado por Scardino et al. (2002) mostrou que parentes de jovens doadores tatuados tendem a dar respostas inconsistentes sobre fatores de risco relacionados às doenças infecciosas, principalmente nos casos de morte por trauma.

Um estudo publicado por Goode, Hertzmark e Steinert (1988) mostrou que o risco de um paciente submetido à ceratoplastia penetrante receber uma córnea de um doador infectado por HIV, apesar de resultados sorológicos negativos do soro do doador,é de 0.03%.



Bibliografia
N Engl J Med. 1992 Mar 12;326(11):726-32 Transmission of human immunodeficiency virus type 1 from a seronegative organ and tissue donor. Simonds RJ, Holmberg SD, Hurwitz RL, Coleman TR, Bottenfield S, Conley LJ, Kohlenberg SH, Castro KG, Dahan BA, Schable CA, et al.

Schwarz A, Hoffmann F, L'age-Stehr J, Tegzess AM, Offermann G. Human immunodeficiency virus transmission by organ donation. Outcome in córnea and kidney recipients. Transplantation. 1987;44(1):21-4.

Cornea. 2002 Nov;21(8):798-802. The postmortem sociomedical interview: uncertainty in confirming infectious disease risks of young tattooed donors. Scardino MK, Hwang SJ, Hanna CL, Danneffel-Mandelkorn MB, Wilhelmus KR.

Am J Ophthalmol. 1988 Oct 15;106(4):463-6 Adequacy of the ELISA test for screening corneal transplant donors. Goode SM, Hertzmark E, Steinert RF.


Fonte:
Capítulo: “Riscos de Transmissão de Infecção”- Autores:Cristina Muccioli;Daniel Wasilewski;Rafael Allan Oechsler;Samia Ali Wahab; Gleisson Rezende Pantaleão;Fernando dos Reis Spada;Guilherme José Nunes Rocha;Hamilton Moreira. Retirado do livro: Banco de Olhos , Transplantes - Série Oftalmologia Brasileira ;dos editores Hamilton Moreira, Luciene Barbosa de Sousa e Élcio Hideo Sato; Cultura Médica e Gen/Guanabara Koogan; 2008.

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